sexta-feira, 21 de março de 2014

Missão na gratuidade


Frente à realidade que orienta a vida a partir da produtividade e do consumo, a realização pessoal passa a ser sinônimo de sucesso financeiro. A partir desse contexto, a gratuidade, um dos passos fundamentais para a missão, passa a ser entendida como ignorância do espírito, plano superficial da existência. Jesus propõe, nas bem-aventuranças dos pobres de espírito, o caminho da verdadeira sabedoria e libertação, e nos convida a percorrê-lo junto com Ele. No Evangelho de Mateus, entende-se a pobreza como uma atitude de amadurecimento interior que promove a saída, semelhante à alteridade. A alteridade é afirmar as mais diversas identidades com responsabilidade mútua, que permite a relação com o outro em sua diferença radical.

Essa postura surge pela pobreza de espírito, a qual exige um trabalho interior que só é posto em prática quando amo o outro. Isso faz compreender que a pessoa é comunidade e, portanto, só dá bons frutos quando ela deixa de ser o centro de todo seu trabalho e passa a praticar o amor desinteressado, gratuito... Pobreza de Espírito significa gratuidade!

“Bem-aventurados quer dizer felizes”
No Sermão da Montanha, Jesus prega sua própria vinda. Do estábulo onde nasceu até a sua jovem morte e ressurreição, Ele traça o caminho da vida que vai em direção à verdadeira felicidade. Jesus de Nazaré não promete um estado produzido de alegria, alcançado como quem abre uma lata de refrigerante ao passear pelos Shoppings Centers. Seu anúncio é profético e continua a remar contra a maré. É preciso ir contra a felicidade proposta hoje em dia como um artigo de consumo e recuperar o sentido da nossa juventude. Se alcançará a felicidade real a partir de uma imensa experiência de amor ao próximo, que só depende da minha atuação, do meu ouvir e de praticar as palavras de Jesus.

Essa é também a postura do papa Francisco, que além de viver a humildade, orienta a todos quando diz em sua exortação Evangelii Gaudium que “a abertura do coração é fonte de felicidade [...]”. “Felizes os que têm fome e sede de justiça, pois serão saciados”.


Somente onde a justiça se concretiza é que pode surgir a paz. E somente quando eu faço justiça àquilo que sou, posso viver bem. A denúncia nunca deixou de existir na vida de Jesus. Mesmo diante da conjuntura política opressora, corrupta e excludente de seu tempo, no qual os poderosos romanos determinavam o direito, Jesus teve ousadia de falar da carência de justiça. Para que a igualdade de direitos seja efetiva, é preciso que todo o trabalho da Igreja tenha em perspectiva o compromisso missionário, que é universal.

Fome e sede de justiça referem-se a todas as pessoas e as impulsiona a uma ordem honesta comum a todos. No Evangelho, a palavra justiça remete à meta de vida e é por eles que Jesus diz ser necessário fazer da justiça o alimento diário. É por isso que utiliza as metáforas “fome e sede”.

“Felizes os perseguidos por causa da justiça, pois o Reino dos Céus lhes pertence!”
Até onde se está disposto a ir pela justiça? Jesus, na oitava bem-aventurança é radical e aposta na mudança de pensamento e na conversão, na coragem de se envolver e de arriscar a vida pela justiça. Aqui Ele busca propor a restauração da face humana e de seus direitos pela doação completa, que pode chegar até o martírio. A bem-aventurança cria comunidades que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus; mesmo Espírito pelo qual Jesus Cristo vem ao mundo para ser novamente perseguido pela justiça. A postura profética de Jesus Cristo exige que a existência seja transformada para que a vida plena se cumpra. Mas como é possível fazer com que a pobreza de espírito se transforme em estilo de vida?

Que 2014 seja de “Bem Aventuranças”
Trabalhar para a construção de uma nova mentalidade que pense a partir da comunidade e priorize o trabalho mútuo é compromisso de todos. Que em nossas ações missionárias e atividades deste ano de 2014, o espírito de solidariedade inspire trabalhos cooperativos, que combatam a desigualdade e promovam o desenvolvimento integral das pessoas, como fez Jesus durante toda a sua vida. Que nossos gestos sejam sinal de caridade no meio dos povos. Fica o pedido para que tenhamos fome e sede de justiça; para que estejamos nos presídios, nos lares de idosos, nas ruas, nos lixões, nas famílias, casas de reabilitação, como uma Igreja que parte e rompe fronteiras. Que sejamos verdadeiramente Jovens, Famílias, Idosos e Enfermos Missionários. Ao assumir esse compromisso, continuaremos a contribuir como Igreja, toda ela realmente missionária.

Guilherme Cavalli
Secretário Nacional da Obra da Propagação da Fé.

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