terça-feira, 5 de março de 2013

Solidariedade vivida: vida partilhada!


Na madrugada do dia 2 de janeiro, quatro jovens missionários do Brasil partiram para viver o impulso missionário no país do Paraguai, em comunidades campesinas juntos aos moradores da cidade de Quyquyhó. Eu, Guilherme Cavalli, tive a graça de ser um desses jovens enviados a viver essa experiência representando a Juventude Missionária do estado do Rio Grande do Sul. Juntamente com meus irmãos em Cristo, João Guilherme de Mello, do estado do Paraná, Wesley Araujo, do Mato Grosso do Sul, e Marcelo Bleme, de Minas Gerais, formamos a equipe missionária da JM do Brasil (POM) assim contemplando a JM-POM Brasil.

Como despertou esse desejo de partir? Por que nos dispomos a esse trabalho? Na esperança de cumprir o mandato de Jesus Cristo e se fazer servidor, buscamos distanciar-nos para, com a amplidão das situações, na máxima gratuidade, nos compreender como sujeitos de nossa própria evangelização; como cristãos atuantes com direitos e deveres; como Jovem Missionário comprometido em estar perto daqueles que estão longe; como indivíduos que, nas suas circunstâncias, buscam discernir sua vocação, e cumprir a primeira, ou seja, cultivar e proteger a vida.


No contato com outras culturas, buscamos entender o valor das diversas tradições, do respeito pelo que se vem cultuando, e nessas vivências procuramos desvelar partes constituintes da diversidade da Igreja Católica, inserida nas múltiplas faces da América Latina.

Deixar as pompas, o luxo ou mesmo a rotina, e em constante procura, correr atrás da essência que move comunidades hoje, moveu ontem e moverá amanha. Despojar-se de preconceitos, transbordar felicidade por estar presente, compartilhar sorrisos, ouvir, quebrar o egocentrismo moderno, abrir-se ao outro que também é eu, deixar tudo mesmo que seja por dias -, ser feliz fazendo o outro feliz. Tudo equivale a vivência da alteridade na missão, foi a isso que nos dispomos.


Mas por quem partimos? Compreender que a força da missão não caracteriza-se como força individual é o primeiro mandato do missionário. Essa experiência missionária não era minha nem de meus amigos jovens missionários. Estamos seguindo o mandato de Jesus Cristo: Mt "Ide por todo universo anuncia a boa nova a toda criatura..."; At 1 "Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, na Samaria e até os confins da terra", quando pediu que nos fizéssemos presente em todos os lugares, de que anunciássemos sua Boa Nova aos povos, as nações, e principalmente a aqueles que estão longe, que são oprimidos, que permanecem sendo marginalizados. Foram esses, os últimos para os reis das leis, que foram e devem continuar sendo os primeiros destinatários da mensagem de Jesus, pois ela se constrói especialmente neles. Jesus Cristo, com seu testemunho que o levou a Cruz e a Ressurreição, inaugurou no meio de nós o Reino de Vida, e é a plenitude desse que buscamos atingir ao partirmos como humildes missionários do Pai, buscando construir realidades onde não haverá 'nem morte, nem luto, nem pranto, nem dor" (Documento de Aparecida, 143,). Foi por Ele e por todos os Jovens Missionários que partimos. O Documento de Aparecida caracteriza esse ser enviado do qual nos dispomos: comunicar todas as partes, transbordando de gratidão e alegria o dom do encontro com Jesus Cristo e tem preenchido nossas vidas de significado, esperança e amor.

A pertinência da pergunta que faz refletir onde estamos depositando a força da nossa Jovialidade nos fez compreender que Missionariedade, a força que envia, força daquele que é enviado, não é própria de si, mas uma força que lhe é dada por aqueles que contribuem para que esse trabalho se realize, por Deus Amor que chama instrumentos para agir em prol de seu Reino, instrumentos de sua ação. Logo, o primeiro e principal agente da missão é a atuação do Espírito Santo que age sobre o cristão.

Podemos perfeitamente entender e presenciar o rosto de Cristo nas diversas experiências que tivemos: nas dificuldades que encontramos e que eram vencidas na bravura de um povo que luta, na alegria do singelo sorriso, na luz dos puros olhares, nas lágrimas que escorriam nos rostos enrugados das solitárias avós, nas mãos calejadas dos humildes agricultores, na criança que corria abrir os portões para a chegada do missionário, na cultura do compartilhar que une 140 famílias em prol do comunitário, no dividir do sorvete que é servido em um único recipiente, na teologia do tererê que, passando de mão em mão, forma comunidade.


Inevitável é não procurarmos a felicidade pessoal . Mais fora de lógica é não buscarmos realizar-nos. O que mais me impressiona nessa luta, por vezes dês-humana, é que, na gana de vencermos, pensamos poder avizinhar-se desta felicidade - sozinhos, em um monologo de glória. Quase nunca entendemos que a estrela só é constelação na união, ou que o grão de areia só é praia no somar de partículas mínimas. Rebeliões de um homem só não existem. Jardim com apenas uma rosa, também não. A vida, em todos os seus sentidos e gêneros, precisa ser compartilhada, contada e recontada, até mesmo reinventada. Para tanto, existe apenas uma exigência: o diálogo entre bocas que falam e ouvidos que escutam deve se dar como intima relação de alteridade. Como nos darmos conta disso? Conhecer o outro, a nova cultura, determinados costumes, exige abertura. A missão é doar-se, é ação kenótica, mais do que qualquer outra atitude. Dispor-se a novidade, ser ouvido que acolhe mais do que boca que professa. E assim posso realizar-me? Perguntou-se o inquieto viajante. A vida é missão, então no passar do tempo necessário, respondeu que sozinho nada seríamos. Que na relação com o que se encontra distante, romperíamos cercas; que no distanciar do cotidiano, o notaríamos; que no romper do auterego, nos descobriríamos; mas acima de tudo, que no ato de professarmos nossa fé no Deus da vida que se encontra no olhar daquele que mais necessita, daríamos sentido a nossa caminhada.

Assim, no amor aos povos, gritamos a exigência de que se respeite a diversidade, de que a vida seja a principal escolha, de que o gemido daquele que morre na margem da sociedade se transforme através do nosso ato de compaixão, em música daqueles que lançam malabares nos sinais, dos ocupantes de sarjetas, dos catadores de papéis, enfim, de todos os sujeitos, diante dos quais somos indiferentes. Todos em uma só roda, a liberdade cantará a utopia de um mundo justo e solidário. Então, mais fortemente nessa experiência, compreendemos que a vida se completa na entrega, na troca, no dividir, no escutar: na Missão.

Guilherme Cavalli
Coordenador da Juventude Missionária no RS

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