sexta-feira, 8 de abril de 2011

O testemunho de um missionário da Consolata coreano no sertão brasileiro


Olá amigos!
É uma surpresa para mim estar escrevendo em português, nunca imaginei escrever nesta língua tão bonita! Um dia recebi um email do Pe. Albino, pedindo um testemunho para vocês, jovens portugueses. Meu coração se alegrou mas a minha preocupação foi: e a língua?

A minha vocação
Quero, então, partilhar convosco a minha ainda curta experiência de missão aqui, no Brasil. Peço-vos que entendam que, como estou aqui faz pouco tempo, ainda não conheço bem o Brasil, depois, meu testemunho é dado do ponto de vista de um coreano que observa e gosta do que vê.

Antes de falar acerca do que seja, deixem-me falar-vos da minha vocação: conheci a Consolata na Coreia do Sul, onde os missionários da Consolata moram e trabalham atualmente. Imaginem uma comunidade formada apenas por estrangeiros (de 7 ou 8 países diferentes) e que, ainda por cima, não falavam o coreano. Mas, graças a Deus, todos se entendiam. Este foi, para mim, o melhor exemplo do que é ser missionário e deixou-me a pensar: Cada um deles veio de um lugar diferente, cultura e língua diferente, tinham caraterísticas diferentes... Mas estavam lá, viviam juntos, comiam a nossa comida (muito picante) e aprendiam a nossa língua. Era um exemplo maravilhoso. Foi com este exemplo que decidi entrar para o seminário da Consolata.

Foram 12 anos de formação na Coreia (filosofia) e em Itália (teologia) até que, no dia 8 de outubro de 2009, fui ordenado sacerdote missionário. No dia 12 de Dezembro cheguei aqui, no Brasil. Tive 3 meses apenas para aprender o português (em Brasília) e fui destinado a trabalhar no sertão, em Jaguarari (que quer dizer pequeno urso), na Bahia. Mas vamos ao que interessa, o nosso trabalho aqui no sertão:
A nossa comunidade é constituída por quatro missionários, um brasileiro, um português (o Pe. Domingos Forte), um etíope e eu, coreano. É o exemplo de missão e multiculturas que me atraiu para o seminário de novo em ação.

O nosso trabalho?
Senhor do Bonfim é o nome da nossa diocese; foi criada em 1933 e é um território muito grande, tem mais de 300kms de extensão. Infelizmente os padres são só 30 diocesanos e 6 missionários. Realmente faltam trabalhadores na vinha do Senhor! Nós, missionários da Consolata, temos quase 100 comunidades, organizadas em nove núcleos, cada um tem entre 9 a 15 comunidades. Cada dia visitamos essas comunidades, celebramos a Eucaristia, estamos com as famílias e promovemos a formação.

A minha grande dificuldade, podem imaginar, é a língua. Se um missionário domina a língua local, 70% do seu trabalho é facilitado. Por isso, estou a aprender a pouco e pouco com as pessoas que sempre me ajudam e abrem o coração para me fazer entender a cultura baiana. Nisso, o povo me está a evangelizar, porque a evangelização sempre começa pelo nosso coração aceitar a cultura local. A minha primeira missão é essa e faço-o sempre com o pensamento que estou trabalhando em nome de Jesus Cristo.

Aqui no nordeste existe uma mistura de espiritismo dentro da igreja, por isso o trabalho de formação na catequese é muito importante, por exemplo, quando tem missa comunitária muita gente não sabe como responder. No Domingo de Ramos, muita gente leva o ramo para casa e vai bebendo em chá, acreditando que ele é remédio, o mesmo acontece com a água benta, acreditam que é um remédio mágico. Quem conhece bem a história, diz que esta cultura do espiritualismo veio com a vinda dos escravos africanos e, com o tempo, se foi misturando com o cristianismo. Por todo o lado encontro exemplos de espiritualismo, o nosso trabalho passa por explicar as diferenças.

«Já vai embora?»
Durante meu trabalho de visitas à comunidade, no momento da partida, muitos me dizem “Já vai embora?” esta pergunta faz-me sentir em família, faz-me amar este povo que me abre a mente e meu coração.

A comunidade de Jaguarari tem um projeto de evangelização com outra comunidade, de Monte Santo (também da Consolata) que fica a 150kms da nossa. Como o nosso trabalho é de paróquia, por vezes se corre o risco de perder a identidade missionária; este projeto quer dar um carisma missionário ao nosso trabalho numa Bahía completamente abandonada pelo governo.

Para terminar, quero pedir a vocês para rezar por este povo e pelos missionários que trabalham com este maravilhoso povo baiano.

Pe. Pedro Han (IMC)

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