quinta-feira, 29 de abril de 2010

A Bola da Copa por R$ 1,00.


Ela é bonita, macia e já está a venda nas lojas. Há várias versões, mas a oficial, igualzinha a que vai rolar nos gramados africanos custa R$ 399,00! Este preço, acredito, deve variar no nosso comércio, mas foi este o valor que me pediram, numa loja de shopping.

Bem, como o meu desempenho nos gramados de pelada não anda lá essas coisas, optei por desistir de comprar a bola da Copa. É muita areia pro meu caminhãozinho, é muita luz negra (isso é antigo!) pra minha dança, é muita grana por uma bola e, acima de tudo, é muita bola pra minha bolinha!

Mas, é aquela história: em véspera de Copa do Mundo, qualquer coisa que tenha a ver com o evento mais esperado do futebol, custa caro. Bola, camisa da seleção, seja lá o que for. Aposto que, depois da copa, independentemente do desempenho do Brasil, a bola oficial estará custando bem menos. Aí, talvez, eu compre.

Ainda mais depois de ter lido reportagem sobre a bola da Copa. O tema central era a alta tecnologia da nova bola. E, lá no final, num pequeno espaço, a informação que me deixou de cabelos em pé. A bola oficial da Copa da África é manufaturada no Paquistão, imaginem. Justamente num país que não tem a menor tradição no futebol. São os efeitos da globalização e, quanto a isso, não há nada de errado. Pelo contrário, afinal, são milhares de famílias paquistanesas sobrevivendo graças às bolas de futebol que produzem. E é gente qualificada para o serviço, de tradição secular por lá.

Só que nem tudo é assim, tão redondo quanto parece. Digo isso porque cada trabalhador paquistanês recebe apenas R$ 1,35 por bola confeccionada. Não, eu não escrevi errado, não! A bola oficial da copa, pela qual me pediram a exorbitância de R$ 399,00 na loja, custa UM REAL E TRINTA E CINCO CENTAVOS lá no local onde os paquistaneses a confeccionam. Em outras palavras, o preço final de uma bola da copa é 295 vezes maior que o seu preço de origem.

Não é de espantar que 70% de todas as bolas vendidas no planeta saem dali, do Paquistão.


A gente, por aqui, nada tem a ver com isso. Mas, por um instante, me veio à mente aqueles tempos de glória do sindicalismo brasileiro. Todas aquelas lutas, aqueles piquetes, aquelas concentrações em porta de fábrica, as grandes greves e etc. Os operários cruzando os braços para exigir melhores salários e melhores condições de trabalho. E foi a partir desta luta que muitas conquistas dos nossos trabalhadores se tornaram definitivas.

Mas, eu não quero ser saudosista. Os tempos são outros e os sindicatos continuam ai, defendendo da maneira como é possível os nossos direitos. Só que, sinceramente, me incomoda muito saber que existem milhões de pessoas pelo mundo afora, na mesma condição destes paquistaneses, ou seja, dando um duro danado para receber tão pouco. Vendendo o almoço pra comprar a janta! Será que não existe alguém capaz de defender a dignidade dessas pessoas?

No Brasil, para ser justo, uma parcela da população também vive o mesmo drama.

Quem sou eu para questionar o capitalismo e os seus efeitos. Mas, fiquei boquiaberto com essa história, colocada em segundo plano, a respeito de como é produzida a bola da Copa. E o pior é que não se fala em greve, nada, lá pelas bandas do Paquistão. Pelo menos, não que eu tenha ficado sabendo.

E a vida segue. Durante os próximos meses, milhões de bolas da Copa serão comercializadas, fazendo a alegria dos jogadores profissionais, dos peladeiros e das crianças de todo o planeta. É o efeito mágico da “esfera” que põe, no mesmo patamar, pobres e ricos, craques e pernas de pau. Que consegue unir gente de várias nações e já foi capaz até de interromper guerras. Quando a bola está rolando, não há perseguição contra negros, não há discriminação religiosa, em nada importa a preferência sexual de quem está ali, perseguindo o balão de couro.

Alguém já disse que futebol é o esporte mais democrático que existe. E é. A gente junta médicos, pedreiros, motoboys, taxistas, porteiros, jornalistas, vendedores ambulantes, empresários, operários, desempregados e afins, todos no mesmo time e dá super certo. Por algumas horas, todos esquecem o que são no mundo real, no cotidiano de suas vidas, deixam de lado suas frustrações só para correr atrás “dela”.

Pena que este brinquedo mágico não seja capaz de tornar o mundo mais justo. Eu faria questão de pagar os R$ 399,00 se tivesse a certeza de que os artesãos paquistaneses iriam receber um aumento substancial, tendo o seu trabalho devidamente reconhecido. Pagaria com gosto. Mas a notícia complementar não é boa: as grandes indústrias, de material esportivo, que detém algumas das mais valiosas grifes, já estudam uma forma de costurar os gomos da bola com máquinas. Linha de produção. E, quando isso acontecer, é fácil imaginar que milhares de pessoas serão dispensadas.


Outro detalhe da reportagem me chamou atenção: No fundo daquela sala, os humildes trabalhadores paquistaneses faziam a sua parte numa semiescuridão, só quebrada pelo brilho de uma velha TV. Na tela, um jogo do futebol europeu. Os maiores craques do mundo fazendo o melhor uso possível daquele objeto tão cobiçado, que custa tão caro nas lojas e que os operários paquistaneses fabricam na maior simplicidade, sentados no chão.

Pensando bem, deve ser demais ver um Cristiano Ronaldo, um Kaká, um Messi jogando bola. Posso imaginar o que sente um artesão daqueles. Olhos brilhando, peito estufado e um grito diferente de gol: “fui eu que fiz!”

Todo sacrifício tem a sua compensação. O pão é pouco, mas o circo é do tamanho do mundo e redondo como uma bola de futebol.

Brito Júnior, jornalista e apresentador da TV Record
FONTE: http://noticias.r7.com/blogs/britto-jr

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